PARTE III
7. JUVENTUDE E DEMOCRACIA
A democracia, regime que assegura a oportunidade para todos, garantindo
e estimulando a potencialidade dos que se demonstram mais capazes, tem na juventude seu
núcleo central. No entanto, o privativismo e o coletivismo, modelos de sociedade
democrática, só dão vez ao jovem que consegue aceitar as regras pré-determinadas, o
que entra em choque com seus próprios valores. O adulto pode até confessar-se impotente
para reverter um panorama social, mas o jovem costuma desviar-se das normas preconizadas,
não pelo simples instinto de contradição ou pela vontade de renegar o estabelecido,
mas, freqüentemente, pelo prazer de sustentar um ideal. Ele passa, então, a medir
forças com o poder, ainda que não tenha um projeto alternativo, de forma consciente,
para apresentar.
O Brasil, que teve uma grande oportunidade de ingressar na modernidade
democrática, nos anos 60, perdeu-a por ocasião do golpe militar de 1964, optando por um
modelo de desenvolvimento que comprometeu o futuro das próximas gerações. O resultado
pode ser facilmente constatado no momento atual: a concentração de renda gerou uma
economia próspera, mas que excluiu grande parte do povo e aumenta o nível de pobreza no
país. Esta realidade choca-se com os ideais da juventude que, tradicionalmente, anseia
por uma sociedade mais justa. Por contestá-la, o jovem torna-se, então, alvo da reação
dos poderosos. A repressão às idéias preconizadas pela juventude parece ter sido a
única política adotada nos últimos anos pelo Estado brasileiro em relação a seus
jovens. Num resquício dos anos de ditadura, muitas vezes, ainda reagem, como se eles
estivessem praticando um crime, quando tudo o que, a grande maioria, sempre desejou e
ainda deseja é a alteração do quadro social, político, cultural, jurídico e
ideológico. No entanto, ao tentar inovar, o jovem é visto como afoito, irresponsável,
inconseqüênte. Em resposta a seus ideais é sempre tratado com prepotência e má
vontade.
Sabe-se que é impossível a implantação de um projeto democrático
que não contemple a juventude. Mas o Brasil, um dos países com maior taxa de população
jovem do mundo, ainda não elaborou uma política direcionada a eles. Contudo, quanto mais
a opinião pública bem informada e independente rejeita os discursos paternalistas e as
práticas autoritárias, mais a democracia avança. E esta é a crença daqueles que
apostam no futuro e dos que acreditam que os homens são capazes de criar uma sociedade
mais fraterna. ("Juventude, uma cidadania necessária" - Lincoln de Abreu Penna
- Cidadania/Emancipação - Editora Tempo Brasileiro - 1990)