Jovens ausentes
Era nos diretórios acadêmicos que se formavam os futuros líderes do
Brasil. No momento em que os militares fecharam os sindicatos e abortaram a participação
da juventude na política, fechou-se o celeiro onde cultivavam-se as lideranças futuras.
Só o futuro vai dizer até quando vai persistir esta falta de líderes entre os jovens
brasileiros."O Vazio das lideranças" - Murilo Melo Filho, jornalista,
Perspectiva Universitária, nº 261, junho de 1991.Quem se preocupa com a juventude sabe
da importância da participação do jovem no cenário político nacional e preocupa-se
com o descaso pela atividade política por parte do estudante brasileiro, atualmente. O
fato é que "a juventude foi despolitizada nas últimas décadas, o que fez com que
perdesse seu dinamismo e sua capacidade de interferir no processo político Ainda está na
memória do jovem a lembrança das perseguições sofridas por seus colegas nos anos de
ditadura.
A ecologia tornou-se a grande identificação entre as entidades
estudantis, nos nossos dias". (Anselmo Jund, 26 anos, vice-presidente da Regional Rio
da União Nacional dos Estudantes - UNE). "Os jovens estão vinculando as questões
estudantis às sociais, como o caso dos assaltos nas portas das escolas, consequência da
desigualdade do sistema em que vivemos". (Marcelo Morel, 21 anos, presidente da AMES
- Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro).(Do texto
"Fazer Política é um direito que o jovem tem, mas pouco usa" - Ana Kahn,
Perspectiva Universitária, nº 252, setembro de 1990)
A instalação do governo militar, em 1964, conseguiu acabar com o
movimento estudantil. A realidade, porém, é que o senso de justiça social, o anseio
pela democracia, nunca deixou de estar presente na juventude brasileira que está voltando
a se reestruturar e continua a simbolizar a esperança de um Brasil melhor. ("A UNE
é patrimônio do povo brasileiro" - Fernando Gusmão, presidente da União Nacional
dos Estudantes - UNE - O reencontro do Brasil com a sua Juventude - Ministério da
Educação e do Desporto - dezembro de 1994). Com o desenvolvimento do país o jovem
estudante de hoje não pertence mais apenas as classes abastadas. Atualmente eles são
filhos de operários, de profissionais liberais, de funcionários públicos e têm a
obrigação de apostar numa democracia capaz de enfrentar a degradação social dos tempos
modernos. ("A responsabilidade de abrir novos caminhos" - José Genoíno,
deputado federal em depoimento à revista UNE O reencontro do Brasil com a sua Juventude -
Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de 1994).
E o país passou, assim, a ter uma grande dívida com os "caras
pintadas" que foram para as ruas contribuindo decisivamente para a democracia e a
restauração da ética nos espaços públicos. ("Para construir um país plenamente
cidadão" - Murílio de Avellar Hingel, ministro da Educação - depoimento à
revista UNE O reencontro do Brasil com a sua Juventude - Ministério da Educação e do
Desporto - dezembro de 1994). O que se espera, agora, é que os jovens que foram para a
rua lutar pela ética nesse país se perguntem se, de certa maneira, não foram usados. É
preciso que eles trabalhem, agora, para que o movimento por eles liderados tenha
consequências históricas. A impressão, porém, é que os caras pintadas vão se
aprofundar e, aí sim, eles mudarão a história do país. ("É preciso pintar de
cores novas a cara da História" - Moacyr Félix, escritor e poeta - depoimento à
revista UNE O reencontro do Brasil com a sua juventude - Ministério da Educação e do
Desporto - dezembro de 1994).
"A juventude sempre esteve na vanguarda do julgamento dos homens
públicos. Os moços têm uma generosidade admirável em suas posições que estão longe
de ser apenas negativistas. Mesmo quando criticam, estão fazendo a vida pública. A
atitude vigilante mostra que a juventude está presente, mostra como ela mantém um
entusiasmo que pode ser comprovado com os caras-pintadas e com o grande interesse pelo
voto e pelo caminho eleitoral quando do debate e da final aprovação do voto aos 16
anos" (sic). ("Declaração de José Aparecido de Oliveira, político, à
revista Interview - Editora Azul (nº 185 - 1995, pag. 77) - Reportagem "Um amigo na
praça", de Belisa Ribeiro).
Juventude e violência
A adolescência, um período de vida marcado por grandes
transformações, está sendo vivenciado em meio a grandes manifestações de violência,
nas grandes cidades brasileiras. Dados do final de 1980, do IBGE/UNICEF, apontam que,
causas externas - acidentes, homicídios, suicídios e envenenamento - foram responsáveis
por 51,1% das mortes entre jovens dos 10 aos 14 anos. Entre os de 15 e os 17 anos, o
número sobe para 66,4%. Há um quadro de carência generalizada, graças ao modelo
econômico adotado nas últimas décadas, que faz com que a juventude carregue uma carga
pesada de necessidades não atendidas. Em conseqüência, boa parte dos jovens busca na
rua condições de garantir sua subsistência, procurando seu sustento num meio que lhes
é adverso.
A sociedade brasileira oscila entre dois polos em relação a esses
jovens carentes. Se, por um lado, sente que deveria protegê-los, por outro teme os
chamados "meninos de rua", porque é freqüentemente vítima de suas atitudes.
No entanto, grande parte das crianças que vive nas ruas tem casa e uma família. E se
apenas esporadicamente eles voltam para o que deveria ser um "lar", é muitas
vezes devido as distâncias, ao custo financeiro de voltar para casa e as condições
destas casas, geralmente plantadas em locais onde não se encontra sequer saneamento
básico. Na verdade são poucos aqueles que tem a rua como sua única alternativa. Entre
os meninos de rua é freqüente o uso das drogas . Em São Paulo, a maior cidade do país,
pesquisas recentes revelaram que 73% desses jovens, na maioria os de menos idade, já
haviam feito uso de algum tipo de droga. Entre elas, as mais constantes são os inalantes
e o fumo.
O Cadernos do IBASE, nº 10, informa, porém, que pesquisas apontam o
uso de drogas, também, entre jovens universitários, sendo que a Faculdade de Psicologia
da Universidade de São Paulo - USP - identificou o uso de bebidas alcoólicas, do tabaco,
de tranquilizantes, de estimulantes e da cocaina. entre seus alunos. Outro quadro
preocupante é que a tendência a associar os jovens carentes a atos de delinqüência
está gerando o extermínio entre eles. Uma pesquisa, também realizada pelo IBASE,
juntamente com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e Núcleos de Estudos da
Violência da Universidade de São Paulo, constatou que, no mínimo, mais de um jovem é
assassinado, diariamente, no país. Assim, a juventude carente brasileira, vivendo entre o
medo e o paternalismo autoritário, encontra-se negativamente estigmatizada.
A falta de opções no mercado de trabalho formal, conseqüência de
uma economia instável, pode ser considerada uma das causas que têm levado os jovens
brasileiros da classe pobre para a marginalidade. Eles entraram nos anos 90 marcados por
falta de políticas públicas que garantam seus direitos, tais como educação, trabalho,
saúde, lazer e qualidade de vida. Por outo lado, a violência apresentada pela televisão
e no cinema, mostrando jovens deliqüentes juvenis sendo beneficiados por atos
anti-sociais, funciona como um estímulo as atitudes agressivas. Enquanto isso, os meios
de comunicação dignosticam que os centros de atendimento ao jovem infrator não estão
preparados para reintegrá-los na sociedade, terminando por torná-los, ainda, mais
violentos