A luta pela democracia
A trajetória de luta pela construção da democracia e da justiça
social no Brasil, nos tempos atuais, começou a ser encampada pelo jovem brasileiro em
1937. Até então sua presença só se fazia notar por ocasião de movimentos
específicos, como a libertação dos escravo e a campanha antimonarquista. Em 1938,
porém,ao ser convocada para o II Congresso Nacional dos Estudantes, a juventude já
demonstrava sua preocupação com problemas tais como a mulher na sociedade, o
analfabetismo e o ensino rural e universitário.
Ao longo dos anos eles se fizeram presente na luta contra o fascismo e
o governo ditatorial de Getúlio Vargas; iniciaram uma série de campanhas em defesa do
patrimônio territorial e econômico do país, exigiram mudanças no sistema educacional
capaz de tirar o Brasil do analfabetismo; rebelaram-se contra a universidade que lhes
parecia um instrumento das elites, cujo objetivo principal era manutenção da ordem
social então existente. Num de seus momentos mais importantes uniram-se aos intelectuais,
apoiando a criação do Centro Popular de Cultura, visando a encontrar novos públicos e
novas linguagens para um tipo de arte capaz de alertar o povo para seus direitos.("A
UNE, do Estado Novo aos caras-pintadas" - sem identificação do autor - Revista UNE
- O reencontro do Brasil com a sua Juventude, edição do Ministério da Educação e do
Desporto - dezembro de 1994). Se a tendência a contestação, uma característica da
juventude fez com que os jovens fossem sempre muito importantes na construção da
democracia, no Brasil, foi na década de 60, através das entidades estudantis, lideradas
pela União Nacional dos Estudantes - Une -, que eles tiveram sua atuação mais marcante.
Dotados do espírito crítico que resulta do conhecimento, lutavam por
uma universidade que atendesse às ansiedades da maioria, clamando por reformas que
tornasse o ensino adequado às necessidades e à realidade do País. "Num país que
tem o intestino à mostra como o Brasil, num país com um drama social tão profundo, é
muito importante que a juventude tenha uma atitude política de indignação. (...) ...
jovem brasileiro tem que ficar indignado: tanta criança com fome, tanto jovem lançado na
miséria, tanta pobreza desnecessária; é inexplicável como o Brasil consegue fazer
tanta gente com fome tendo tanto recurso para produzir.(sic) (Aos trancos e barrancos -
como o Brasil deu no que deu - Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e senador da
República - Editora Guanabara - 1989). A juventude pedia a construção de habitações
populares e exigia a democratização do poder público. Por ocasião da renúncia do
presidente Jânio Quadros, quando aconteceu a tentativa de impedir a posse do
vice-presidente João Goulart, mobilizou-se através de seus órgãos de classe,
convocando greves nacionais e enfrentando nas ruas a polícia fortemente armada, gerando
um grande impacto junto à sociedade. ("Os estudantes brasileiros sempre fizeram
História" - Aldo Arantes, deputado federal, em depoimento a revista UNE O reencontro
do Brasil com a sua juventude - Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de
1994).
Entre os anos de 60 e 64 eclodiu na Faculdade Nacional de Filosofia
(FNFi), Rio de Janeiro, um grande movimento político e cultural. Seus alunos não ficavam
ilhados nas salas de aulas, mas estabeleceram um intercâmbio de idéias, o que lhes
permitiu descobrir que os problemas não eram prerrogativa do curso de cada um, mas do
ensino no Brasil, como um todo. Organizados, passaram a pleitear o fim de uma estrutura
burocrática incompetente que controlava a máquina administrativa em todo o país,
permitindo a existência de um corpo docente medíocre e incompetente, com raras e
honrosas exceções. Graças a um longo e paciente trabalho, o grupo mais consciente foi
eleito para a chefia do Diretório Acadêmico, passando a apoiar qualquer movimento que
visasse a melhoria do ensino. Criaram, inclusive, os cursos pré-vestibulares que
preparavam outros jovens à ingressar nas Universidades. A Faculdade, além de dar aulas
formais, passou a oferecer cursos extra curriculares, seminários, sessões de teatro e de
cinema de arte e ciclos de estudos de política internacional. A novidade espalhou-se e
passou a ser copiada em outros centros de estudo, em maior ou menor escala, em todo o
país.
É claro, porém, que nem sempre os jovens conseguem pensar e agir com
equilíbrio. E se ali eles deram demonstrações incontestes de dignidade social, também
se envolveram em imaturidade política e ingenuidade analítica. Rapidamente a FNFi
tornou-se a faculdade de maior porcentagem de socialistas na América Latina, onde jovens
na quadra dos 20 anos falavam em Marx e Engels com a maior superficialidade.
Superestimando-se, por volta de 1963, a maioria de seus alunos pregava a necessidade de
derrubar tudo - inclusive a faculdade, que considerava morta - fazer a revolução, para
tudo recomeçar. Assim, esgotaram forças em lutas secundárias, passando a ser alvo de
provocações por parte de um pequeno grupo de fascistas, muitos dos quais, no futuro,
viriam a se tornar policiais.
Tudo isto fez com que, a partir de 31 de março de 1964, com a
destituição de um governo legalmente eleito, os jovens estudantes passassem a ser vistos
como subversivos e elementos altamente perigosos. A invasão pelos soldados da Polícia
Militar de Minas Gerais ao campus da Universidade de Brasília - na época, a única no
país a ter uma estrutura realmente moderna - é um bom símbolo do quanto os generais
temiam aqueles jovens que se haviam ligado a intelectuais e a líderes sindicais. A
Universidade foi fechada, seus diretores destituídos, os professores e alunos presos, os
livros de sua biblioteca queimados. A Universidade que era o símbolo da luta de toda a
sociedade consciente para superar o atraso cultural e o subdesenvolvimento do país, havia
sido estruturada nos moldes mais atualizados na época, foi praticamente destruída. Ao
ser reaberta, seguindo determinações do governo, era mais uma universidade ultrapassada.
(O Poder Jovem / História da participação política dos estudantes brasileiros - Artur
José Poerner - Editora Civilização Brasileira - 1979)
O golpe de 1964 levou as mais importantes lideranças jovens à
clandestinidade. "... Todo o corpo discente das Universidades passou por um crivo. O
fato de ter pertencido a certas associações bastava para suspender grande número de
estudantes, por seis meses ou por um ano, prejudicando-os materialmente: a muitos
tornou-se impossível a continuação dos estudos. Mas, quem se tinha pronunciado contra a
brutalidade das botas ou contra a estupidez dos que engraxavam as botas, teve destino
pior: foram expulsos da faculdade, com proibição de matricular-se em qualquer outra.
(...) Quer-se impedir que os estudantes hoje e os intelectuais amanhã assumam seu papel
natural de líderes do povo..." (sic) (O Brasil no espelho do mundo - Otto Maria
Carpeaux - Editora Civilização Brasileira - 1965)
Apesar de toda a repressão, a juventude do Brasil diminuiu mas nunca
cessou sua luta pela volta à democracia. Em 1966, partindo da condenação ao governo
tolitário passaram a denunciar seu conteúdo anti-nacional. Quando o governo determinou o
pagamento de uma pequena anuidade (28 mil cruzeiros antigos) nas universidades públicas,
o Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Brasil recomendou o não pagamento,
vendo no fato o símbolo da obediência à recomendação dos Estados Unidos de que se
privatizasse o ensino, transformando as instituições públicas em fundações. Uma
passeata em Belo Horizonte, aplaudida pela população que jogava papel picado das janelas
enquanto os jovens cantavam o hino nacional foi violentamente dissolvida pela polícia. No
entanto, serviu para reavivar a chama do movimento pela volta à democracia, em todo o
país. Espocavam as greves de protesto, realizavam-se congressos da União Nacional dos
Estudantes - UNE apesar das proibições e rígidas normas decretadas pelo governo. De tal
forma oprimido, o movimento estudantil terminou por diminuir, até 1968.
Uma invasão de policiais, às dependências de um restaurante criado
para estudantes sem recursos - O Calabouço - resultou, no dia 28 de março, na morte de
um estudante sem qualquer atuação política, Edson Luis de Lima Souto, de apenas 18 anos
e recém chegado ao Rio de Janeiro. O fato revoltou não apenas a juventude, mas a
população que se uniu a eles despertando a oposição que parecia adormecida. O enterro
do rapaz transformou-se numa imensa manifestação popular, reunindo milhares de pessoas
em reações sempre pacíficas. Entre essas, a chamada "Passeata dos Cem Mil",
no dia 26 de junho, no Rio de Janeiro, quando se teve a impressão de que se avizinhava um
período de abertura democrática. No entanto, o governo não demorou a dar a resposta,
através do Ato Institucional nº 5 - o AI 5, que, entre outras medidas, fechou o
Congresso Nacional, Assembléias Legislativas dos estados e Câmaras de Vereadores dos
Municípios, voltava a suspender os direitos políticos e inúmeras outras garantias
constitucionais.
Com o AI 5 a oposição arrefeceu-se decisivamente. Não que o jovem
tivesse cessado sua opção pela democracia, mas porque parecia que, afinal, a ditadura
havia conseguido impor seu modelo de universidade e de universitários. (O Poder Jovem /
História da participação política dos estudantes brasileiros - Artur José Poerner -
Editora Civilização Brasileira - 1979). Contudo, mesmo enfrentando prisões, torturas, e
o exílio os jovens continuaram a luta. Denunciando a situação brasileira à imprensa
internacional e a órgãos ligados à defesa dos direitos humanos ou fazendo
manifestações públicas de protesto, mantiveram a resistência à ditadura dos
militares, reivindicando de todas as formas que lhes era possível o retorno das
liberdades democráticas.
Dentro desse quadro, durante anos foram discretos os movimentos da
juventude. Mas a tradição de luta contra o que considera injusto permanecia viva,
explodindo em 1992, quando voltou às ruas para lutar contra a corrupção descoberta
graças a CPI do Orçamento no Congresso Nacional. Assumindo uma posição decisiva diante
da opinião pública, pressionam de tal forma os parlamentares que se tornou impossível
sufocar a revolta e evitar as medidas que iriam resultar no impeachment do
presidente Fernando Collor ("A UNE, do Estado Novo aos caras-pintadas" - sem
identificação do autor - UNE O reencontro do Brasil com a sua juventude - Edição do
Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de 1994).