TABLA DE CONTENIDOS
PARTE I
1. JUVENTUDE:
EXPANSÃO, CRISE OU DESAFIOS
PARTE II
2. JUVENTUDE
E EDUCAÇÃO
3. SAÚDE
E JUVENTUDE
4. JUVENTUDE
E EMPREGO
5. CULTURA,
ESPORTE E JUVENTUDE
6. ESPORTE
PARTE III
7. JUVENTUDE
E DEMOCRACIA
PARTE IV
8. JUVENTUDE
URBANA - MARGINALIZADOS E EM TRANSFORMAÇÃO
9. JUVENTUDE
UNIVERSITÁRIA
BIBLIOGRAFÍA
CONSULTADA
PARTE I
1. JUVENTUDE: EXPANSÃO, CRISE OU DESAFIOS
1.1. Os direitos sociais: da cidadania
As desigualdades entre os homens sempre estiveram presentes, em todos
os tempos da História da Humanidade. Pode-se dividir em três grandes
fases a evolução no mundo ocidental, para a conquista da cidadania.
A primeira, decorrência das Revoluções Americana (1776) e Francesa (1789)
é a conquista dos Direitos Civis (igualdade formal perante a Lei). A
segunda, no sec. XIX, é a da conquista dos direitos políticos e a terceira,
no começo do sec. XX é a conquista dos direitos sociais. O reconhecimento,
por parte do Estado, de seus deveres e obrigações para com o bem-estar
dos cidadãos. Esta introdução tem como objetivo situar o que significa
cidadania, que sem as dimensões apresentadas não estaria completa. A
cidadania está ligada ao cotidiano das pessoas enquanto vínculo, enquanto
elo de ligação entre o indivíduo e o Estado. É por isto que o Estado
tem compromissos e responsabilidades com o dia-a-dia das coletividades
em relação a aspectos como educação, saúde, moradia, transporte etc.
São as chamadas políticas sociais básicas, trabalho, educação, saúde,
habitação, abastecimento, transporte, esporte, meio ambiente. As outras
concretizam através dos programas e ações de assistência social. Os
destinatários da ação assistencial do Estado são as pessoas ou grupos
que estão na condição de subcidadãos ou cidadãos de segunda classe estando
mais expostos à morte, à doença e à degradação pessoal e social. É o
universo das chamadas situações de risco.
1.2. A juventude e a realidade dentro do contexto
brasileiro
O maior patrimônio de uma nação é seu povo. O maior
patrimônio de um povo são as suas crianças e seus jovens (sic). "Nas
últimas décadas os governos brasileiros ignoraram esta verdade elementar:
é um estado de degradação pessoal e social em que subsistem milhões
de crianças e adolescentes. (COSTA, Antônio Carlos Gomes da: 1989).
"...Nota-se a ausência de cidadania quando uma
sociedade gera um menino de rua. Ele é o sintoma mais agudo da crise
social. Os pais são pobres e não conseguem garantir a educação dos filhos...
É a famosa pergunta: o garoto é pobre porque não conseguiu estudar em
uma boa escola ou é porque não estudou que continua pobre?...Estamos
vendo os extremos da perversidade social. Os mais fracos são as maiores
vítimas: as crianças e os velhos. É uma sociedade que não respeita suas
crianças e os velhos, mostra desprezo ou, no mínimo, indiferença com
seu futuro. Todo mundo já foi criança e será velho, um dia. Portanto,
ninguém está seguro. (DIMENSTEIN, Gilberto: 1993). O chamado "menino
de rua" - aqui inclui-se também o adolescente - "é uma ilha
cercada de omissões por todos os lados. Todas as políticas públicas
básicas já falharam em relação a ele". (sic) (COSTA, Antônio Carlos
Gomes da: 1989).
Os pais ou responsáveis por este menino são desempregados
ou estão na faixa do subemprego com, no máximo, um salário mínimo. habitam
em locais sem condições mínimas de bem estar. Sem dignidade. Um exame
de saúde neste jovem mostrará um quadro sério de comprometimento: sarna,
piolho, dentes podres, vermes. Ele enriquece as estatísticas dos não
matriculados na escola, de repetência e de evasão escolar. Todas as
políticas publicas básicas sociais falharam em relação ao "menino
de rua". A política de emprego e de salário justo em relação a
seus pais, as políticas de habitação, de saneamento básico; a educação
e a saúde não estiveram presentes em sua vida. Essas crianças e adolescentes
que estão nas ruas de nossas cidades não são frutos do acaso. São conseqüência
das opções políticas, econômicas e sociais que estão presentes na vida
brasileira, há várias décadas. A segregação social, na vida das crianças
e jovens das camadas carentes do Brasil, começa desde sua concepção..O
nascer numa família cuja renda não chega a 0,4 salário mínimo per capita,
é a mais fundamental das triagens:divide a sociedade brasileira em dois
grupos: cidadãos e subcidadãos.
Segundo Hélio Jaguaribe, 60% da nossa população subsiste
nos limites da pobreza e da miserabilidade, sendo relegados a condição
de subcidadão na triagem inicial. Se escapa de morrer por diárreia e
outras doenças que aumentam as estatísticas da mortalidade infantil
( aproximadamente 320 mil crianças por ano), o pequeno subcidadão enfrentará
a subnutrição, a falta de estímulo, a rejeição e, certamente sentirá
seus efeitos na 1º grau. Mais de 40% de crianças que entram na escola
pública não passam da 1ª série. É triste constatar que a escola pública
brasileira não está sendo só o "maior restaurante do mundo"
(aquele que num só programa mais refeições distribui) como o maior centro
de triagem do país. Um centro que segrega milhões e milhões de pequenos
brasileiros do direito básico de qualquer cidadão: o saber ler, escrever
e contar.
A triagem continua vida afora. As portas se fecham
para esses meninos e jovens subcidadãos, que só conseguem entrar no
submercado de trabalho quando não estão na trilha da vadiagem, na criminalidade.
E na rua funciona um importante lugar de triagem que divide em grupos
os que trabalham em estabelecimentos regulares e os que estão ligados,
na rua, aos vários esquemas, desde o furto, prostituição até o tráfico
de drogas. Daí surge uma nova triagem que segrega esses meninos do conjunto
dos outros meninos e adolescentes. Eles fazem parte daqueles que a polícia
procura para deixar a população tranqüila, pois a presença desses jovens
em certos lugares, significa delito e isto desencadeia uma ação policial
de repressão. É bom registrar que 70% dos meninos e meninas apreendidos
nas ruas são por vadiagem, atitude suspeita e outras coisas no mesmo
gênero. Levados para a Justiça de Menores são novamente submetidos a
outra triagem: Liberdade ou Confinamento? Como se vê, a vida desses
jovens das camadas marginalizadas é uma grande triagem.O Brasil está
entrando no século XXI sem ter ainda uma forma concreta de organização
econômica, social e política que contemple o atendimento às necessidades
básicas dessa juventude.
1.3. Evolução histórica dos Direitos da Juventude
Durante todo o periodo colonial, Primeiro e Segundo
Impérios, não tivemos instituição pública que atendesse a chamada "infância
desvalida". Nos quatro primeiros séculos da história, do País,
enfrentou a "questão do menor". Um presidente da Velha República
disse: "o problema social é um caso de polícia". Sessenta
anos depois, a violência urbana chegou a tal ponto que fomos forçados
a admitir" que a maioria dos casos de polícia são, em última análise,
problemas sociais" (Gabeira, Fernando:1985). Entretanto, a associação
problema social/caso de polícia fez nascer um atendimento ao menor com
o cunho de repressão.O menor era visto como uma ameaça social.Essa mentalidade
resultou na criação do Serviço de Assistência ao Menor, um estabelecimento
chamado de "sucursal do inferno" e "escola do crime".
O regime militar, em 1964, é que vai intervir nessa realidade com a
intenção de revertê-la.Em dezembro de 1964 é publicada a Lei 4.513,
contendo as diretrizes e bases para a "Política Nacional do
Bem-Estar do Menor". É criada a Fundação do Bem Estar do Menor.
O enfoque correcional-repressivo, é substituido pelo enfoque assitêncialista.
O menor torna-se então carente. Entretanto, a Funabem, ao ser criada,
não mudou a mentalidade da maioria daqueles que alí foram trabalhar.
Isto fez com que, na prática, o modelo correcional-repressivo fosse
o adotado.
De 1982 para cá surgiu uma nova maneira de ver o problema
das crianças e jovens em situação de risco. Surge entre os educadores
e trabalhadores sociais da área um movimento de educação progressiva.
Uma pergunta, então. se colocou: o que fazer para superar a sistemática
degradação pessoal e social dos jovens ? A resposta não é simples. Não
é fácil reverter uma realidade em pouco tempo. É preciso implodir a
"Política do Bem-Estar do Menor" e reconstrui-la. Isto exige
muito das pessoas que se proponham a tal empredimento. (Costa, Antonio
Carlos Gomes da: 1989, Brasil-Criança Urgente). Mudar este quadro é
um desafio. Para isso é preciso uma união de forças entre o governo,
as instituições e a sociedade. Em novembro de 1959 o Brasil votou pela
aprovação, na ONU, da Declaração Universal do Direitos da Criança, cujo
principal objetivo é assegurar uma infância feliz com condições de gozar
os direitos e liberdades nela enumerados.
Em outubro de 1986 foi realizado em Brasília o "
Encontro Nacional Criança e Constituinte", quando a visão do problema
da juventude passou de local a nacional, as medidas, defendidas no plenário,
foram aprovadas. O resultado deste Encontro foi assegurado no artigo
227 da Constituição Brasileira de 88 e na Convenção Internacional dos
Direitos da Criança, aprovado em 1990. Na época, com apoio das bancadas
do governo e da oposição, foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente
- ECA, pelo Congresso Nacional, tornando-se a Lei 8.069,de 13 de junho
de 1990.(Lisbôa, Antônio Márcio J.: 1991). O Estatuto da Criança e do
Adolescente, que garante o direito constitucional de mais da metade
da população brasileira, representa uma verdadeira revolução social.
Muito do que determina o Estatuto continua no papel, pois as intenções
são maiores do que os recursos. A proibição de trabalho para menores
de l4 anos, garantida pelo ECA está fora da realidade brasileira. È
difícil fazer cumprir esta lei, num país onde as crianças contribuem
para o sustento da família. O Estatuto não vem sendo obedecido, mas
existe. Representa tudo de moderno que gostaríamos, mas é difícil sua
execução integral. (Rodrigues, Yvon e Rodrigues, Pedro Paulo: 1991).
1.4. O Conceito de Juventude e quadro demográfico
da população jovem
Em 1990 o número de adolescentes no Brasil era
de 34.311.111. Esta cifra representava 23% da população, sendo 49,7%
do sexo masculino e 50,3% do feminino. Nos últimos vinte anos, a mortalidade
para eles tem aumentado, sendo a violência e o suicídio os maiores responsáveis
pelo crescente número de óbitos.
Mas que população é esta? O que é o adolescente?
A UNESCO indica que adolescência é o período que começa
aos 15 anos de idade e vai até os 24 anos.Alguns autores como Colli
Setian acham que esse período "adolescência" não pode ser
tratado com "começo e fim" tão rígidos. A variação é de país
para país e, pode-se dizer mesmo no caso do Brasil, de região para região.
Causas psico-sociais concorrem para essa flexibilidade.
A juventude ou adolescência deve ser entendida como
um segmento da sociedade. Por se tratar de um segmento intermediário
entre a criança e o adulto o adolescente tem caracterísiticas próprias.
Características frágeis, que por isto fazem do jovem o "espelho"
deste sistema, porque o adolescente retrata o conjunto de mazelas dessa
sociedade. Individualmente, o adolescente passa por transformações biopsicosociais
que são vividas por alguns como crise da idade, que Luiz Carlos Osório
compara à crise sócio-política do mundo atual (Batista Neto, Francisco:
1990).
A adolescência pode ser definida cronológica, sociológica
e psicologicamente. Cronologicamente é o periodo que varia dos doze
aos vinte e cinco anos. Notar aqui a diferença dos limites de idade
do enunciado pela UNESCO. Sociologicamente é um periodo de transição
do estado de dependência para o de autonomia. É quando se começa a assumir
as responsabilidades do mundo adulto. Psicologicamente, a adolescência
é um período crítico de definição do ego, com grandes mudanças na personalidade.
Para o psicologo M. Rosa, a adolescência é um conjunto psicossocial
que: "representa uma fase crítica no processo evolutivo em que
o individuo é chamado a fazer importantes ajustamentos de ordem pessoal
e social. Entre esses ajustamentos temos a luta pela independência financeira
e emocional, a escolha de uma vocação e a própria identidade sexual.
Como conceito psicossocial, a adolescência não está necessariamente
limitada aos fatores cronológicos. O que, de fato, marca o fim da adolescência,
são os ajustamentos normais do individuo aos padrões de expectativa
da sociedade, com relação às populações adultas"(ROSA, M.:1985).
Concluindo: a adolescência é um período de transição
entre o ser criança e o adulto. Esta situação de ser e não ser e a busca
da identidade psicológica cria uma grande confusão que provoca a crise,
bem definida pelos franceses como " l' âge bête" (OLIVEIRA,
Maria Clara O.: 1991). A adolescência é um fenômeno biopsicossocial
do processo de crescimento e desenvolvimento do ser humano, nitidamente
marcada pela família e pela escola. (Milani, Feizi Masrour:1991). O
desenvolvimento de uma pessoa é uma sucessão de experiências psiquicas
que, num processo de separação e individualização termina na aquisisição
da consciência da identidade.(MAHLER, M.:1986) A adolescencia é uma
fase do desenvolvimento do ser humano que corresponde à segunda década
da existência. Ela contém a síntese das conquistas e dos atropelos da
infância e a transformação sexual, ideólogica e, até social, impostas
pela mudança corporal. (Maakaroun, Marilia de Freitas: 1991). É uma
fase do ser humano de profundas transformações físicas, psicológicas
e sociais.Momento em que a pessoa estabelece novas relações com a família,
amigos e consigo mesmo. Fase das perguntas e das dúvidas que devem encontrar
espaço para serem respondidas sem preconceitos e com liberdade para
não se transformarem, mais tarde, em angústia e ansiedades. (Takiuti,
Albertina Duarte: 1991).
