3. SAÚDE E JUVENTUDE
Não há no Brasil programas especiais de saúde para a faixa etária
mais jovem, como há para bebês e crianças. Não se conhece, também, dados
estatísticos amplos e completos sobre os padrões de saúde/doença dos adolescentes ou
sobre o uso que fazem dos serviços de saúde no país. Desde 1960 os profissionais de
ensino e médicos vem tentando introduzir a educação sexual nas escolas no sentido de
minorar os problemas advindos do desconhecimento do assunto. A despreocupação brasileira
com esta faixa etária, na área da saúde, resulta em vários riscos para os mais jovens,
entre elas, gravidez precoce, alta incidência de contaminação por doenças sexualmente
transmissíveis, elevadas taxas de consumo de drogas, um número crescente de suicídios,
homicídios e acidentes. A taxa de fecundidade entre as jovens vem aumentando. Em 1970, 75
de cada mil mulheres de 15 a 19 anos davam à luz todos os anos. Já, em 1986, o número
subiu para 81. Nas áreas rurais do Nordeste a taxa se eleva ainda mais rapidamente.
Várias hipóteses têm sido levantadas para explicar porque as adolescentes estão
engravidando mais. Entre elas: as lacunas do sistema econômico e social em criar qualquer
mudança real nas oportunidades abertas às mulheres jovens; os efeitos da maior liberdade
sexual verificada em todos os segmentos da sociedade, a partir do final da década de
1960; a ênfase crescente na sexualidade pelos meios de comunicação de massa e a chegada
cada vez mais cedo à menarca (1ª menstruação) entre as meninas brasileiras.
Estudos realizados mostram que a maternidade precoce traz graves riscos
para a saúde da mãe e da criança e a relaciona com os altos índices de mortalidade
materna. A maioria das meninas que engravidam tendem a ter baixo nível de escolaridade, e
residem em áreas rurais e pobres. Partindo-se desse princípio, conclui-se que correm
muito mais riscos de morrer por complicações na gravidez, já que não recorrerem a um
atendimento pré-natal. Além dos problemas de saúde, há também as decorrências
sociológicas da gravidez prematura. As jovens que se casam ou engravidam muito cedo
apresentam uma probabilidade menor de concluírem os estudos, e, mal preparadas para
qualquer emprego, reduzem as chances de melhorar sua condição econômica . Elas também
tendem a criar filhos que continuarão, eles próprios, a viver em condições de pobreza,
perpetuando o ciclo de pobreza e desigualdade social.
Vale lembrar, ainda, que um grande número de jovens está resolvendo o
problema da gravidez indesejada com abortos ilegais e clandestinos, que podem leva-las à
morte. Oficialmente, a interrupção da gravidez é ilegal no Brasil em quaisquer
circunstâncias que não sejam a salvação da vida da mãe ou como conseqüência de
estupro ou de incesto. Apesar disso, as estimativas do número de abortos ilegais
realizados todos os anos no Brasil variam de um limite minímo de um milhão e máximo de
seis milhões. Na ausência de dados confiáveis, os pesquisadores baseiam suas
estimativas em estudos de pequena escala sobre mulheres em situação de risco e em
levantamentos realizados por hospitais, em que são contadas as mulheres atendidas em
conseqüência de abortos mal-feitos ou outras complicações. Dados do Inamps mostram
que, entre os casos decorrentes de aborto atendidos nos hospitais da rede, 4% das
pacientes são jovens de 12 a 17 anos e 32% mulheres de 18 a 24 anos.
A falta de conhecimento sobre as formas de evitar a concepção é
imensa entre os jovens brasileiros. O nível de escolaridade é apontado nas pesquisas
como o que exerce maior influência no grau de conhecimento, ou não, sobre os metódos
anticoncepcionais. Quanto maior o nível de escolaridade de uma adolescente, maior será a
probabilidade de que faça uso de algum método contraceptivo. Dados de 1986 mostram que,
entre as jovens que têm apenas três ou menos anos de escolaridade, 37% praticam a
anticoncepção, 44% não fazem nada para evitar a gravidez, e 19% estão grávidas. Ao
contrário, entre as mulheres que têm sete ou mais anos de escolaridade, 57% praticam a
anticoncepção e 23% não o fazem. Entre os adolescentes que tiveram três ou menos anos
de escolaridade, a taxa de fecundidade era de 176 por mil, enquanto que entre aquelas que
tinham continuado a estudar até o nível médio, e além dele, a taxa era de 49 por mil.
O fato das jovens viverem em zonas urbanas ou rurais pouco influencia no conhecimento ou
não dos métodos contraceptivos. Porém, os níveis de conhecimento sobre a pílula, a
esterilização feminina, o preservativo e o método do ritmo são um pouco mais elevados
no Norte (apenas nas áreas urbanas), no Rio de Janeiro e em São Paulo e um pouco mais
baixos no Nordeste. As diferenças não são grandes, especialmente no que se refere à
pílula e à esterilização feminina.
De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-infantil e
Planejamento Familiar - PNSMIPFde 1982, o método predominante de anticoncepção é a
pílula. Com o aumento da difusão do rádio, da televisão e, com melhores níveis de
alfabetização dando acesso a leitura, dos jornais e revistas até mesmo nas áreas mais
remotas do país, não é de surpreender que o conhecimento desses dois métodos de
planejamento familiar seja tão alto entre os adolescentes. Os método que se seguem são:
o coito interrompido na região Sul; tabelinha, no Nordeste, na região Amazônica e em
São Paulo. A única exceção a esse padrão parece ser o Piauí onde, 69% das
adolescentes das áreas urbanas tomavam a pílula e 25% adotavam os preservativos. A
diferença é particularmente grande em relação aos métodos masculinos (o preservativo,
o coito interrompido e a vasectomia) e ao DIU. Enquanto que 57% das adolescentes
residentes em áreas urbanas declararam que tinham conhecimento desse último método,
apenas 27% das adolescentes das áreas rurais o conheciam. Vale ressaltar que, além de
evitar uma gravidez prematura, o aumento no conhecimento sobre os métodos
anticoncepcionais e no uso dos preservativos, com o aparecimento da Aids, significou um
avanço importante.
Com freqüência os adolescentes, particularmente as mulheres, são
vítimas de um padrão duplo de moralidade. Enquanto seus pais e a Igreja lhes dizem para
adiar as relações sexuais até que se casem, os anúncios e grande parte dos meios de
comunicação de massa promovem o sexo como um produto desejável de consumo, que traz
prestígio a todo os que o praticam. Além disso, as pesquisas têm mostrado que os jovens
tendem a ter uma visão exageradamente romântica e irreal do sexo. Querem se sentir
arrebatadas por uma paixão irresistível, não querem planejar a relação sexual e, para
muitos (de ambos os sexos), se o sexo fôr planejado deixará de ser espontâneo. Muitos
argumentam que se tivessem um método anticoncepcional em casa, seus pais poderiam
descobrir, causando um confronto familiar.
A PNSMIPF de 1986 constatou que 80% das adolescentes de 15 a 19 anos
que são sexualmente ativas e que nunca se casaram, não usaram nenhum método
anticoncepcional por ocasião da primeira relação sexual e 15% delas adotaram o método
do ritmo ou o coito interrompido (dois métodos que tendem a apresentar elevadas taxas de
falha). Restam apenas 5% que usaram um método eficaz (quase exclusivamente a pílula).
Perguntadas sobre por que não haviam usado nada, quase dois quintos declararam que não
estavam esperando ter relação sexual na ocasião e, mais de um terço declarou que não
conhecia nenhum método na época; as restantes disseram que ou não sabiam onde obter um
contraceptivo ou não acreditavam que pudessem engravidar durante a primeira relação
sexual ou ainda que queriam engravidar.
A pesquisa de 1986 revela que, entre as adolescentes que tiveram um
filho, um terço declarou que não queria ter tido aquela criança. Como confirmação de
que muitas adolescentes se casam por já estarem grávidas, a pesquisa mostrou que apenas
30% das adolescentes casadas com um ou mais filhos praticaram a anticoncepção antes do
primeiro parto (36% nas áreas urbanas e apenas 17% nas áreas rurais). As adolescentes
pobres e menos educadas têm maiores chances de se casarem mais cedo. Além disso, elas
percebem que têm menos a perder com uma maternidade precoce. A gravidez na adolescência
pode ser mais aceita entre os pobres, assim como pode também ser mais valorizada do ponto
de vista psicológico, dada a falta de outras fontes de enriquecimento individual nessas
comunidades. Uma outra explicação dos grandes diferenciais de taxas de gravidez entre
jovens ricas e pobres pode ser o fato de que as filhas adolescentes de pais ricos podem
pagar por um aborto se engravidarem, enquanto que para as mais pobres, é mais difícil
considerar tal opção.
Obviamente, a maternidade precoce e suas conseqüências são apenas um
entre muitos fatores que contribuem para manter grandes números de jovens brasileiros em
condições de extrema pobreza e em risco de vida. Existem no Brasil de hoje vários
milhões de jovens considerados de alto risco por causa da pobreza. Este fator leva à
fome e à desnutrição, afetando-lhes a saúde física e mental e prejudicando-lhes o
desenvolvimento físico e intelectual. É também o que marca a falta de um lar ou de
condições habitacionais adequadas, levando as doenças que podem matar. Nesses lares
miseráveis, a vida dos jovens se desenvolve numa vizinhança caracterizada por poucas
oportunidades de lazer e segurança e muitas oportunidades de perigo, brutalidade e
exposição a violência. (Adolescente de hoje, Pais do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação
Emílio Odebrecht).
Um aspecto bastante preocupante detectado pela PNAD de 1986 foi o
aumento de óbitos entre os jovens, no grupo de 15 a 17 anos, causado por homicídios,
suicídios, acidentes e envenenamentos nas principais cidades brasileiras. A violência é
responsável por mais da metade dos óbitos entre adolescentes. Estas causas externas de
mortalidade mostram uma tendência de crescimento entre 1979 e 1986, o que pode ser um
reflexo de dois fenômenos distintos: redução de óbitos por outras causas, como por
exemplo as doenças infecciosas entre adolescentes, e um aumento real da violência tanto
nas cidades como nas áreas rurais. Os casos de homicídios e de suicídios chegam a
superar os acidentes de trânsito.(Crianças & Adolescentes, Volumes I, II e III,
Indicadores Sociais, Unicef e IBGE, 1989).
O número crescente de jovens viciados em drogas é alarmante. O Cebrid
(Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas) realizou dois
levantamentos nacionais, nos anos de 1987 e 1989, para saber como está a relação drogas
e adolescentes. Nas 17 cidades brasileiras pesquisadas, predomina entre os estudantes o
uso de drogas consideradas lícitas, que podem ser obtidas em farmácias e lojas, como os
solventes e os inalantes. A situação dos jovens que vivem nas ruas é dramática.
Dependendo da cidade, o índice daqueles que fazem uso de algum tipo de tóxico chega a
45%. Esses jovens que vivem a esmo nas ruas, sem elos sociais e culturais, acabam
consumindo drogas pesadas para "sonhar", numa tentativa de resgatar sua
essência humana, mesmo que às custas da progressiva destruição física. Acabam
também, muitas vezes, entrando para o mundo do crime, que lhes facilita o acesso aos
tóxicos (I Congresso Nacional. A Saúde do Adolescente, Academia Nacional de Medicina,
1991).
É comprovada a influência das condições de saneamento básico sobre
a saúde. Apesar disso, menos da metade da população infanto-juvenil brasileira vive em
domicílios com sistema de esgoto sanitário inadequado. Quando se comparam os índices em
relação aos meios urbano e rural, as diferenças são gritantes. No entanto, é
necessário levar em consideração que nas áreas rurais ainda existem recursos
ambientais que minimizam estas dificuldades. A Região Nordeste é a que tem os mais
baixos índices de adequação: apenas 22,6% das crianças e adolescentes têm seus
domicílios ligados à rede geral de esgoto ou possuem fossa séptica e somente 34% são
abastecidos por água. A simples posse de filtro de água em casa não está ao alcance de
55,8% da população de 0 a 17 anos.
No tocante à coleta de lixo, no Brasil apenas a metade das pessoas de
0 a 17 anos residem em domicílios onde ela é efetuada. Logo, o restante do lixo é
lançado ao solo, nos quintais, ruas, ou mesmo nos arredores, tornando-se foco de moscas,
mosquitos, ratos e outros parasitas, tornam-se fontes de numerosas doenças. (Crianças
& Adolescentes, Volumes I, II e III, Indicadores Sociais, Unicef e IBGE, 1989). Um
relatório do Banco Mundial estima que, desde a década de 1970, o Brasil gasta anualmente
de US$ 3 a 4 bilhões em serviços de saúde e nutrição dos quais 80% a 90% são gastos
pelo Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social). Ou seja,
somente 10 a 20% é gasto na prevenção e controle de doenças sexualmente
transmissíveis, na distribuição de medicamentos, na educação médica e em programas
de nutrição. (Adolescente de hoje, Pais do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio
Odebrecht)