1.2. A juventude e a realidade dentro do contexto brasileiro
O maior patrimônio de uma nação é seu povo. O maior patrimônio de
um povo são as suas crianças e seus jovens (sic). "Nas últimas décadas os
governos brasileiros ignoraram esta verdade elementar: é um estado de degradação
pessoal e social em que subsistem milhões de crianças e adolescentes. (COSTA, Antônio
Carlos Gomes da: 1989).
"...Nota-se a ausência de cidadania quando uma sociedade gera um
menino de rua. Ele é o sintoma mais agudo da crise social. Os pais são pobres e não
conseguem garantir a educação dos filhos... É a famosa pergunta: o garoto é pobre
porque não conseguiu estudar em uma boa escola ou é porque não estudou que continua
pobre?...Estamos vendo os extremos da perversidade social. Os mais fracos são as maiores
vítimas: as crianças e os velhos. É uma sociedade que não respeita suas crianças e os
velhos, mostra desprezo ou, no mínimo, indiferença com seu futuro. Todo mundo já foi
criança e será velho, um dia. Portanto, ninguém está seguro. (DIMENSTEIN, Gilberto:
1993). O chamado "menino de rua" - aqui inclui-se também o adolescente -
"é uma ilha cercada de omissões por todos os lados. Todas as políticas públicas
básicas já falharam em relação a ele". (sic) (COSTA, Antônio Carlos Gomes da:
1989).
Os pais ou responsáveis por este menino são desempregados ou estão
na faixa do subemprego com, no máximo, um salário mínimo. habitam em locais sem
condições mínimas de bem estar. Sem dignidade. Um exame de saúde neste jovem mostrará
um quadro sério de comprometimento: sarna, piolho, dentes podres, vermes. Ele enriquece
as estatísticas dos não matriculados na escola, de repetência e de evasão escolar.
Todas as políticas publicas básicas sociais falharam em relação ao "menino de
rua". A política de emprego e de salário justo em relação a seus pais, as
políticas de habitação, de saneamento básico; a educação e a saúde não estiveram
presentes em sua vida. Essas crianças e adolescentes que estão nas ruas de nossas
cidades não são frutos do acaso. São conseqüência das opções políticas,
econômicas e sociais que estão presentes na vida brasileira, há várias décadas. A
segregação social, na vida das crianças e jovens das camadas carentes do Brasil,
começa desde sua concepção..O nascer numa família cuja renda não chega a 0,4 salário
mínimo per capita, é a mais fundamental das triagens:divide a sociedade brasileira em
dois grupos: cidadãos e subcidadãos.
Segundo Hélio Jaguaribe, 60% da nossa população subsiste nos limites
da pobreza e da miserabilidade, sendo relegados a condição de subcidadão na triagem
inicial. Se escapa de morrer por diárreia e outras doenças que aumentam as estatísticas
da mortalidade infantil ( aproximadamente 320 mil crianças por ano), o pequeno
subcidadão enfrentará a subnutrição, a falta de estímulo, a rejeição e, certamente
sentirá seus efeitos na 1º grau. Mais de 40% de crianças que entram na escola pública
não passam da 1ª série. É triste constatar que a escola pública brasileira não está
sendo só o "maior restaurante do mundo" (aquele que num só programa mais
refeições distribui) como o maior centro de triagem do país. Um centro que segrega
milhões e milhões de pequenos brasileiros do direito básico de qualquer cidadão: o
saber ler, escrever e contar.
A triagem continua vida afora. As portas se fecham para esses meninos e
jovens subcidadãos, que só conseguem entrar no submercado de trabalho quando não estão
na trilha da vadiagem, na criminalidade. E na rua funciona um importante lugar de triagem
que divide em grupos os que trabalham em estabelecimentos regulares e os que estão
ligados, na rua, aos vários esquemas, desde o furto, prostituição até o tráfico de
drogas. Daí surge uma nova triagem que segrega esses meninos do conjunto dos outros
meninos e adolescentes. Eles fazem parte daqueles que a polícia procura para deixar a
população tranqüila, pois a presença desses jovens em certos lugares, significa delito
e isto desencadeia uma ação policial de repressão. É bom registrar que 70% dos meninos
e meninas apreendidos nas ruas são por vadiagem, atitude suspeita e outras coisas no
mesmo gênero. Levados para a Justiça de Menores são novamente submetidos a outra
triagem: Liberdade ou Confinamento? Como se vê, a vida desses jovens das camadas
marginalizadas é uma grande triagem.O Brasil está entrando no século XXI sem ter ainda
uma forma concreta de organização econômica, social e política que contemple o
atendimento às necessidades básicas dessa juventude.